domingo, 12 de agosto de 2018

POR QUE OS FILHOS CRESCEM? (Simultâneo com o Facebook)

POR QUE OS FILHOS CRESCEM?

"Um dia você descobre que as pessoas com quem mais se importa na vida são tiradas de você muito depressa... por isso devemos nos despedir das pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos."
(Shakespeare)



Neste dia dos pais andarei na contramão da História. Aqui está um pai falando (ou escrevendo) para os filhos. Acho que hoje também sou um pouco mãe, até mais do que no passado. Existem ex-maridos e ex-mulheres, mas não existem ex-filhos nem ex-família. Muito pelo contrário, com o passar do tempo adquirimos e/ou conquistamos novas amizades e novos amores. Falando em tempo, quando eles são pequenos e estamos dando-lhes o mingau ou a papinha, olhamos nos seus olhinhos brilhantes e falamos: “Coma tudinho pra crescer e ficar bem forte.” Será que é isso mesmo que queremos dizer? Não seria melhor continuarmos com eles nos braços e sussurrarmos ao seu ouvido: “Ei, engana a natureza. Não cresce não. Fica assim mesmo. Pequenininho, pra que eu sempre possa te proteger e envolver-te nos meus braços”.

Porém o tempo passa tão rápido quanto a velocidade da luz. Num piscar de olhos cá estão eles: crescidos diante de nós. E nós, abestalhados pelas suas belezas, não percebemos que, aos poucos, os vamos perdendo. A primeira perca é das mães. O nascimento rompe o cordão umbilical que os coloca neste mundo cruel e competitivo. Começamos então a protegê-los, ampará-los e defendê-los com a própria vida. Os verdadeiros pais, e também as mães, são aqueles e aquelas, que mesmo os filhos estando errados, estarão ao seu lado. Não, encobrindo os seus erros, mas aconselhando-os e ensinando-os a errar cada vez menos.

Nas dobras da marca do tempo eles criam asas e o mundo os ensina a voar. E eles se distanciam. Mesmo estando presentes eles não ligam mais pra nós. Os amigos, as amigas, os namorados, as namoradas, o celular são mais importantes do que nós. Começam a viver suas próprias vidas. Já não precisam mais da gente para fazer xixi. Não correm mais ao nosso encontro e voam em nossos braços. Já não nos deixam cantar uma canção de ninar e contar-lhes uma historinha. Já não abrem o berreiro quando chegam na escola, aliás, gostam mais da escola do que de casa. É lá onde encontram os seus guetos. Fazem quase tudo sozinhos. Quase. Porque quando a coisa aperta lembram-se das suas posses: MEU pai, MINHA mãe. E resolvemos os seus problemas.

Eu acho que sei por que os filhos crescem. Acho que eles crescem para ficarem mais parecidos conosco. Para refletirem a nossa imagem e semelhança. Eles crescem para dar sentido a vida e nos lembrar que o tempo passa. Sabe aquele tapinha que o padre dá na face do crismando? Ei, desperta! Suas crianças cresceram! Não passam mais por debaixo da catraca do ônibus! Não entram mais de graça nos eventos! Não tomam mais leitinho! Agora são donos de si. Estão prontos para começarem suas próprias famílias. Um dia vão sair e só irão voltar de vez em quando. Não precisaremos mais acordá-los para ir à escola. Não reclamaremos mais pela toalha esquecida na cadeira da cozinha. Não reclamaremos mais quando ele chegava tarde das festas. A casa estará vazia. Tudo voltará a ser como era antes. Trinta, vinte anos atrás. A vida imita a arte: Éramos Seis, agora somos dois. De novo. Um recomeço.

E o tempo continuará a passar. E chegará a velhice. E os papéis de inverterão. Muitos deles voltarão. Crescidos. E nos colocarão nos braços. Nos darão comida. Nos ajudarão a fazer xixi. Trocarão as nossas fraldas. Nos colocarão na cama. Cantarão para a gente dormir. E nós, mesmo com os braços esmorecidos, as pernas fracas, a voz cansada, os cabelos brancos, os olhos marejados e o coração agradecido entenderemos por que os filhos crescem e ficam fortes.

Os filhos, os bons filhos, crescem para cuidarem de nós.

Samuel Cazumbá