quarta-feira, 20 de setembro de 2017

CARONA PRO PASSADO: DO GRUPO RURAL AO PARQUE DE DIVERSÕES. (Publicação simultânea com o Facebook)

"VOU-ME EMBORA PRO PASSADO!"
(Jessier Quirino)

Arte: José Edinilson (Nilsinho)

A poeira cobre a estrada de terra batida. A brisa de setembro balança as folhas do intenso canavial que cobre de verde a paisagem típica da Zona da Mata pernambucana. Não muito longe avista-se o gado pastando despreocupadamente enquanto algumas mulheres voltam para casa com suas trouxas de roupa lavadas no rio Pagi.

Estou numa monareta, passando em frente ao Grupo Rural, que atende as crianças de campestre e imediações. À frente a Estação do Monte, lugar de negócios, de venda e troca de animais. Entrada da cidade. A recepção é internacional. Volto o olhar para cima e visualizo a imponência da marca Shell, multinacional americana exploradora de petróleo. O Posto com suas bombas arredondadas é de propriedade de Seu Rivaldo e abastece os Fuscas, Brasílias, Variantes, Opalas, Corcéis, Rurais e carros de luxo que chamam a atenção como o Galax ou o Landau.

A bicicleta é pé-duro e tenho que descer para empurrá-la. Mas a visão é agradável. Dá para se deliciar só em olhar para as frutas do sítio de Seu Ozório que está logo ali, a poucas pedaladas. Mas não dá tempo, tenho que correr (o futuro me espera). Monto novamente na magricela e passo direto... mas calma. Tenho sede. Preciso voltar um pouco. Outro posto. É o de Seu Arnor, que além de proprietário é fornecedor de cana para as usinas Barra e Laranjeiras. Outra bandeira internacional: o tigre da Esso reina soberano lá no alto. Seu Arnor tem um Jipe, daqueles da guerra. Arrumado todo. Dou bom dia a Seu Zequinha e paro na barraca de Seu Quitéria. Três caminhões de cana estão parados em frente à bodega: um Dodge, um Chevrolet e um Mercedes Cara Curta. Os motoristas conversam animadamente enquanto comem pão-doce com refresco de abacaxi dentro de uma garrafa de Clipper. Bebo minha água, a qual vem num copo americano, e sigo adiante.

Lembrei-me que minha mãe pediu para passar em Irmão Quintino e saber se a vasilha estava pronta. Nesse tempo as donas de casa mandam consertar panelas de alumínio e Seu Quintino Calixto coloca fundo, solda, remenda e ainda fabrica candeeiros. Luz elétrica é artigo de luxo, assim como água encanada. As pessoas têm que escolher: ou uma coisa ou outra. As panelas ainda não estão prontas. Achei até bom, seguirei a viagem sem ter que carregar nenhum peso. 

Acho que não estou mais andando de bicicleta. O chão sumiu e começo a flutuar. Em câmara lenta. "Que maravilha", penso, "o tempo passará mais lentamente". E assim passo bem devagar em frente ao Bar de Seu Zé Rocha, que fica perto de uma das casas mais bonitas de Vicência, a do Doutor Paulo Tadeu, em frente ao Grupo-pé-de-barreira-ladrão-de-macaxeira-pega-o-pinto-na-carreira-pra-comer-na-sexta-feira. Dou uma brechada na porta do Detelpe. O goleiro Arnaldo está lá. Datilografando um telex. A informação precisa chegar com urgência ao seu destino. Eita! Vou pegar uma prata com meu pai. Seu Manoel Rebolo trabalha no Posto de Mano, também de bandeira Esso. No centro da cidade, em frente à loja de dona Biina. Ele tá lá no dique, coitado, todo sujo de graxa. Põe a mão no bolso do macacão e me dá uma moeda de 500 cruzeiros. Acho que dá pra comprar uma pipoca de arroz e um pirulito Zorro. Não dá pra conversar muito por causa do barulho da água e do som das serras na serraria de Cobra localizada na Rua de João Grilo.

Não é sábado, então não tem a feira de cavalo perto da venda de Seu Nô. Lá em baixo, no finzin daRua do Cisco fica a casa de Seu Simplício, que conserta sofá. Mas me pego no final da Rua Dr. Manoel Borba. Em frente à Sorveteria Itacolomy, do amigo Inaldo. Eita picolé bom da bixiga! E ainda tinha os premiados. Na paleta estava carimbado: vale um picolé grátis. Eu gostava do de menta... e do de chiclete... e do de amendoim... e do de coco... só não gostava muito do pastelizado, parecia isonor. Nem pude pegar um picolé porque a rural de Neto Rodolfo deu um freio em cima de mim. Ôxe! O coração ainda hoje bate!

Mas eu estava em frente à farmácia de Seu Benedito. Onde minha mãe comprava Padrax em pó para tomar na força da lua cheia. As bichas saiam vivas e fuviano. Aí era hora de tomar uma vitamina. Passada ali mesmo, no balcão: Tribedoze, Calcigenol, Teragran Júnior ou Poliplex. Quero entrar em Seu Manoel Carneiro mas não consigo, algo me impede. Meu olhar para diante da estreita porta pintada com tinta a óleo verde. O senhor branco e careca abre a bomboniere (aquelas redondas e cheias de tampas de madeira) e retira um punhado de confeito de mel de abelha. Um pouco mais adiante, Seu Tiago Fotógrafo separa uns monóculos para entregar a uma senhora sentada em uma cadeira de balanço.

Depois de atravessar a calçada da Câmara de Vereadores, que eu não sei nem o que é isso, passo em frente à prefeitura. Só sei que o prefeito ou é Amaury Pedrosa ou é Seu Lula Maranhão. Seu Amaury, além de ser prefeito tem uma loja de fazenda e Seu Lula é dono de quase todos os engenhos de Vicência. Nesse tempo a gente nem sabe o que danado é política; no entanto acabou de passar o carro de som de Seu Lau anunciando que vai ter uma inauguração não sei de que e virá o governador Moura Cavalcante. Mas eu quero é andar. Seu Genival está despachando pão na padaria, onde Seu Bastãozin, meu vizinho, trabalha. Chorei feito um menino (ora, eu sou um menino!) porque não pude entrar e pegar um pouco de massa para a gente fazer nossos pãezinhos em casa.

Olha! É Marcos. Ele está perto do seu pai, Seu Zé de Astro, embrulhando uma quarta de café para um senhor. Os olhos ainda estão lacrimejados e entro escondido no Bar de Lourdes Grande, casada com meu tio, Luiz Ernesto. Eles não podem me ver. Não sou mais desse tempo. O bar é perto da casa de China Machado, casado com Dona Ana Maria, minha professora da segunda série no juvenato-pé-de-pato-vai-pra-missa-sem-sapato. Esta é a rua Grande, onde também reside a família de Seu Daniel Dias, pai de Divânio, Divaneide, Djalma, Diniz, Diva, Petã e Antonieta. Eles perderam um filho num assassinato que chocou a cidade: Danielzinho foi morto por um amigo no bar da rodoviária.

Deixando a tristeza de lado dou uma escorregada na calçada do Banco Econômico, onde trabalham Sissi, Zé Gueba, Wellington, Baixa, Nicodemos, Iolanda, Lalá, Da Lua (meu primo) e Inês. Todos sob o comando de Seu Paulo, o gerente. Nesse momento Ana Gleide aumentou o volume do som na Aky Discos e Evaldo Braga começou a cantar Sorria, Sorria. A loja de Seu João Grilo, Casas Rejane, está aberta. Lá está Da Paz, oferecendo um fogão Semer vermelho e uma radiola Sonata. E quem não quer comer do pão de Seu Manoel Gomes ou de Seu Biu Machado? E a Bolacha Praieira então? Saída do forno com manteiga Cilpe! Sabor incomparável. Quase esquecia. Voltei correndo e passei por baixo do ferrinho no beco da casa de Seu Carlos Sena. Que felicidade!

Hora de cortar o cabelo. Nesse tempo a cabeleira é vasta. Minha mãe não gosta do corte de Seu Tomé. Então eu vou para Seu Pedro Lino, no oitão do mercado. Perto do bar de Dona Zezita, que tinha um apelido pelo qual não gostava de ser chamada, por isso não será mencionado aqui. Dou um tchauzinho a Seu Zé Biló, que está de cabeça baixa costurando um Cavalo de Aço. A barbearia de Seu Tomé está lotada. Não apenas de clientes mas de admiradores da cultura da viola. Ele e Seu Ademar cantam seus repentes.

Na rua da feira tem galinha e peixe no frigorífico de Seu João Coutinho e ninguém precisa ir até posto de gasolina comprar carvão. Seu Senhorzinho vende a saca completa ou quantos quilos o freguês quiser. Acabaram de chegar uns móveis e eletrodomésticos sofisticados na loja de Beto. Lá tem televisão colorida e som 3 em 1. Quem comprar o som já entra na loja de Seu Pedro Nego e grava uma fita cassete com as músicas que quiser. Uma hora de gravação e uma coisa fantástica: ele tem um misturador. Antes de terminar uma música começa outra. Coisa do outro mundo!

Vi uma mulher entrar brava no posto da Compesa para reclamar com Seu Márcio sobre a conta de água. Aproximei-me da janela e ouvi quando ele disse que Austriel iria resolver, mas se o problema fosse vazamento tinha que chamar Seu Zé Calixto ou Lula de Seu Joaquim da Água. A Celpe recebe menos reclamação, mas qualquer coisa é só falar com Seu Inaldo, na esquina que vai para o sindicato ao lado da venda de Seu Zé Nunes, pai de Biu, meu colega de escola.

Ainda dá pra ouvir a voz imponente de Renê Luna, na Difusora Vale do Sirigi, anunciando a chegada do Projeto Rondon na cidade. Passo pelo Sindicato, à minha esquerda a venda de Biu Zomin e o bar de Seu Alfredo. E à direita... o parque! Administrado pela prefeitura. Tem Roda Gigante, Escorrego, Gangorra, Balanço, Cadeirinha e um Quadrado de ferro, o preferido da garotada. Seu Pedro toma conta dos brinquedos.

Parei de flutuar. Senti o chão aos meus pés. Será que poderia brincar um pouquinho? Corri pela areia, pés descalços, fui em direção ao escorrego. Ao segurar na escada para subir uma densa névoa invadiu o ambiente. A mesma brisa que soprara no início foi aos poucos desfazendo as imagens ao meu redor. Estático, apenas observei impotente. Com os olhos marejados vi tudo se esvaindo e se perdendo no infinito do túnel do tempo. Estendi as mãos tentando segurar algo, não deu. As cinzas do passado transpassaram meu corpo e seguiram rumo ao esquecimento (ou não). O fato é que após algum tempo, não sei quanto, fiquei só eu e a velha monareta Monark, que tinha que devolver na oficina de Benedito, ou seria na de Correia? Na dúvida deixei-a lá. É pertinho. Se sentirem falta eles irão buscá-la.

Hora de voltar para o futuro. Mas ainda deu tempo de ouvir ao longe a voz inconfundível de Lula Medeiros, junto com Zé Carlos, Arnaldo, Wilson, Renan Luna e Os Diletantes cantando Mar de Rosas no Clube das Morenas...

Samuel Cazumbá
Agradecimentos: Josuel Cândido e Lula Medeiros.

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