quarta-feira, 12 de abril de 2017

"CARANGUEJO NÃO É PEIXE..."

UMA TRADIÇÃO QUE CUSTA CARO AOS COFRES PÚBLICOS. (Simultâneo com o Facebook)
Foto: Reprodução da Internet


"Costume se dá e se tira". Foi a frase que ouvi de um padre certa vez. A tradição da entrega de peixes na Semana Santa tem se tornado um aperreio na vida dos administradores das pequenas cidades do interior. Poucos gestores têm a coragem de, ao iniciar o mandato, cortar de vez algumas extravagâncias, festas e babilaques. O fato é que Carnaval, peixes, São João, Desfiles Cívicos e outras coisas do gênero não podem ser "passadas em branco".
Assim, os administradores tiram de onde não tem para oferecer uma banda "melhorzinha" nas festas, um pescado na Paixão, etc, etc. A festa das mães (Já que os pais ninguém liga mesmo) é mais fácil. É feita a comissão e vamos buscar as parcerias. Fornecedores são colocados no canto da parede para retribuírem os serviços prestados e as quantias que lhes foram repassadas, tudo dentro dos conformes da Lei, obviamente. Funcionários também são convidados a perderem o amor de alguns reais e chegarem juntos para ofertarem uma prenda às mamães queridas (os papais não são tão queridos).
Voltando aos aquáticos, vale lembrar que as prefeituras nem sempre distribuíram peixes a todo mundo. Se o faziam restringia-se aos mais carentes e, com a melhora das arrecadações municipais, o ato se estendeu a funcionários e a todo o mundo. O problema é que com o passar do tempo as vacas gordas ficaram magras e as magras foram a óbito. A maioria dos prefeitos vivem perambulando, não de pires, mas de caneca nas mãos, em busca de recursos para darem conta de coisas básicas em suas cidades. Pedem aqui, pedem acolá, cortam de cá, cortam de lá, economizam, fazem malabarismo, fazem empréstimos, esquentam a cabeça, dormem mal, ficam estressados, dizem que não têm dinheiro pra nada... mas nem um renuncia o cargo.
Voltando mais uma vez aos alevinos ( já devidamente crescidos e no ponto de se tornarem pratos deliciosos) é absolutamente constrangedor, ou deveria ser,  para um funcionário público, que recebe seus 2 ou 3 mil reais, mendigar, arengar e ficar embirrado porque não recebeu a tão famosa "ficha-do-peixe". Na realidade, essas pessoas nem vão buscar os escamosos. Mandam um portador. No entanto, vale salientar que cada um sabe aonde o sapato, ou o cinto, está apertando.
Acho que um dia isso vai acabar. Assim como as tão famigeradas festas ao ar livre. No tempo do ronca, todo mundo tinha dinheiro para pagar a sua entrada nos clubes, discotecas ou ginásios. Não sei quem, teve a infeliz ideia de pagar altos cachês a artistas super-hiper-mega famosos (e ricos), então o povo foi na onda e se acostumou, como vociferou o vigário. Existem prefeituras por aí que passaram calotes em bandas, cantores, cantoras, tocador de viola, embolador de coco, soprador de apito e tantos outros só para alguém poder aparecer. Outras quebraram na emenda e ainda hoje tentam se levantar por terem investido o erário público em festas, fogos e diversões.
Acho que as prefeituras não deveriam dar o peixe. Deveriam ensinar a pescar. Permitir que o cidadão tenha a dignidade de escolher se quer comer cambinda ou salmão. A preocupação não deveria ser trazer caminhões frigoríficos recheados da guloseima, mas talvez despoluir os rios, para que em uma tarde tranquila, o pescador se sente às margens do ribeiro, estenda o anzol com a minhoca pendurada e pesque por prazer e diversão. Uma piabinha aqui, uma trairinha ali e a festa estaria feita.
Claro que aqueles que passam o Natal sem Peru, a Páscoa sem chocolate, o São João sem milho e as férias sem praia, merecem e precisam não apenas do pescado, mas de atenção, de calçamentos, de saneamento básico, de escolas de qualidade, de um sistema de saúde que funcione, de trabalho, dignidade e respeito.

Samuel Cazumbá

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