domingo, 4 de setembro de 2016

ELEIÇÕES 2004: O DIA EM QUE O 15 VIROU 11 EM VICÊNCIA.

CRÔNICA BASEADA EM ACONTECIMENTOS REAIS MUITO COMUM EM ELEIÇÕES.
Os nomes são fictícios, mas o fato foi visto por todos os seres que possuem olhos...

Por Samuel Cazumbá

Seu Armando ainda hoje é semianalfabeto. Mal sabe assinar o nome. Todavia os números ele conhece muito bem. Aprendera exatamente para desenhá-los na cédula eleitoral, na época que o eleitor assinalava o número do candidato nos quadrinhos da chapa. Ainda estava um tanto indeciso sobre em quem votaria para prefeito. Semelhante ao que está acontecendo no atual pleito, dois candidatos polarizavam a disputa e uma outra corria por fora.

Mesmo cheio de dúvidas, Armando se engajou na campanha do 15 na fase final. Foi apenas para receber um dinheirinho carregando bandeira, indo às caminhadas, segurando latas de tinta (quando era permitida a pintura de paredes) e realizando outros mandados dos responsáveis pelo comitê.

Como é de costume em cidades do interior, a política fervia em sua reta final. Nervos à flor da pele, xingamentos, brigas, confusão na delegacia, deboches, carros de som incomodando os moradores, etc, etc, etc.

No dia da eleição, Armando acordou cedo. A barba estava por fazer, porém ele preferiu não raspá-la. No banheiro, um aparelho bic amarelo repousava sobre a pia, mas ele não usou. Após o banho matinal sentou-se à mesa para tomar o desejum. Estava tranquilo. Comeu um pedaço de melancia, passou manteiga em dois pães bolachão, encheu um xicrão com café e, como todo nordestino que se preza, foi na cuscuzeira, retirou uma fatia do tradicional cuscuz, misturou com umas rodelas de inhame que havia sobrado da noite anterior, ensopou a mistura com molho de galinha e comeu com seus pedaços preferidos: coxa, sobrecoxa, pescoço e uma asa. Bebeu um copo d'água gelada e foi para a rua. Nem ao menos lavou a boca. Escovar os dentes era luxo.

Nas ruas a população parecia dividida. Camisas brancas com o número 15 em azul disputavam espaço com camisas brancas com o número 11 em vermelho. Os mais achegados aos candidatos vestiam camisetas diferenciadas. O vai-e-vem de eleitores era intenso. Seu Armando era um deles. Estava com sua camisa do 15, afinal até a noite da sexta-feira, recebeu seu pagamento.

Onze e quarenta da manhã. Acostumada a se alimentar na hora certa, a barriga de Seu Armando deu sinal. Soube que havia almoço na casa de um político e se encaminhou para o local. Ao chegar em frente ao Ginásio de Esportes encontrou com um amigo do outro lado. Ciço vestia a camisa do 11 e na mão direita segurava duas do 15.

- E aê, meu véi, toma essa pá tu. - Falou o amigo.

Armando não entendeu direito, mas pegou a vestimenta. O amigo Ciço entrou no Ginásio de Esportes e saiu mais gordo. Virou a casaca? Armando pegou sua camisa do 11, enrolou direitinho e enfiou no bolso direito da calça, tomando cuidado para não fazer tanto volume. Ambos se dirigiram para a residência do parlamentar, que ficava ali próximo, pegaram suas quentinhas e desceram a ladeira.

No mesmo ponto em que haviam se encontrado, Ciço tirou a camisa do 15, enrolou direitinho e enfiou no bolso direito da calça. Armando entendeu tudo. Entrou no ginásio de Esportes, tirou a camisa do 15, enrolou direitinho, colocou no bolso esquerdo da calça...

E vestiu a outra.


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