domingo, 3 de janeiro de 2016

EVENTOS NA PRAÇA JOAQUIM NABUCO: MAIS QUE UMA OPINIÃO PESSOAL

A CIDADE NÃO É MAIS A MESMA.

O ano é 1987. Vicência recebe um mito da política nacional. Recém-chegado do exílio e eleito governador com uma lavagem de votos sobre o usineiro José Múcio Monteiro, o ex-governador Miguel Arraes de Alencar sobe no palanque armado na praça Joaquim Nabuco, também chamada à época de Praça de Táxi, e entre empurra-empurra, gritos e alaridos, pega o microfone e brada: "quem for votar em Florêncio levante o chapéu!"

Naquele momento o que se viu foi algo que nunca mais se repetiu em um comício local. Um mar de chapéus de palha da esquina da prefeitura até as imediações do Banco do Brasil. Quem presenciou aquela cena teve a certeza quase que absoluta que o então candidato do PMDB venceria o pleito daquele ano. O centro da cidade não cabia de tanta gente. Especialmente o trabalhador rural, que junto à população urbana promoveu o maior público de todos os tempos em um evento político. E não havia nem uma lata tocando.

Bom, ainda não foi daquela vez que a oposição (oposição mesmo) vencera em Vicência. Pela terceira vez consecutiva o empresário José Florêncio Travassos perdia uma eleição para prefeito. O vitorioso foi o ex-prefeito Mário Ramos, na época filiado ao PTB, que venceu com o apoio do então gestor Amaury Pedrosa.

No final dos anos 70 e início dos 80, a praça Joaquim Nabuco também servia de palco para as rabiadas dos opalas, variantes e landaus durante o Carnaval. Mas os tempos mudaram.

Vicência não é mais a mesma de 30 anos atrás. Cresceu. Expandiu-se para os lados. Para os quarentões (quase cinquentões) o Alto da Foice e o Nova Vicência são bairros novos. Fomos do tempo da terraplenagem de Esperança a Usina Laranjeiras. Buscávamos manga em Tetanduba e visualizávamos apenas a casa de Seu Lulu onde hoje é a avenida Estefânia Carneiro, também conhecida como Rua Nova, pelos mais "idosos".

Alguém inventou de chamar o espaço ao lado do ginásio de Esportes de Pátio de Eventos. Até o Carnaval, que era realizado lá deixou de ser. Todo ano, no dia 1º de maio, há uma gincana automobilística e, não sei quando, um parque de diversões é instalado no lugar. Durante o restante do ano o espaço serve para meu primo, Cacá, ensinar as primeiras lições de direção aos futuros condutores de veículos.

Dois eventos chamaram a atenção no final do ano passado (digo 2015):

CULTO DA BÍBLIA: Um (ou dois) fato curioso na segunda semana do mês de dezembro. Os evangélicos do Brasil sempre comemoraram o Dia da Bíblia no segundo domingo de dezembro. A Igreja Católica homenageia o Livro Sagrado dos Cristãos no dia 30 de setembro. 

No sábado, dia 12 de dezembro, à noite,  as igrejas Batista (CBB) e Batista Missionária realizaram, em conjunto, um culto em ações de graças na praça Joaquim Nabuco, que também possui um monumento em homenagem à Bíblia (além de um busto do ex-presidente da Câmara Municipal, Benedito Nunes Pereira). Para que o evento pudesse ser realizado foi conseguido um palco e, obviamente, armado no centro da cidade.

No domingo (13) foi a vez da Igreja Assembleia de Deus. No mesmo palco, desta vez à tarde, os assembleanos louvaram e fizeram pregações, também comemorando o dia da Bíblia.

Esta foi a primeira deixa para que algumas pessoas usassem as Redes Sociais para atacarem e defenderem o poder público por conta da estrutura armada no meio da rua. Até a cega Maria foi atacada na história e alguém citou até que o dia das Escrituras é comemorado só no mês de setembro.

Bom, como os dois eventos não demandaram um grande público, não houve nenhum problema, aliás, os evangélicos demonstram diferenciais em seus eventos: não enviam ofícios à Polícia, não vendem bebidas alcoólicas e mantém os banheiros impecáveis nos lugares fechados (Ginásio de Esportes, por exemplo). O que chama a atenção é a divisão que há quando de uma comemoração destas. Vale lembrar que o monumento à bíblia foi inaugurado com a presença das autoridades municipais, em meados dos anos 80, uma proposição do então vereador José Antônio Dias (Duda Fotógrafo), membro da Igreja Batista. Excetuando-se a Matriz de Santa Ana, apenas as igrejas Batista e Assembleia de Deus representavam os evangélicos na cidade naquela época. Foi uma das raras vezes que as duas congregações fizeram um evento em conjunto.

O PARQUE E AS BANDAS: "O patinho não vem este ano para o parque. Por quê? Porque ele vai cag... a cidade todinha!" Esta era a inocente piada que circulava todo final de ano na pequenina Vicência dos anos 70. Comércio, indústria e campo paravam de trabalhar na tarde da véspera de Natal. Nossas mães já haviam comprado nossas calças de Terbrim ou Tergal e o vestido de Cambraia das meninas. Quem tivesse com o cabelo grande passava em Seu Tomé, Seu Inácio ou Seu Pedro Lino. As mulheres iam até o salão de Liquinha dar um grau no cabelo. Como não havia chapinha, as de cabelos crespos usavam a Famosa Banha Zezé.

Os melhores perfumes eram os da Avon. Quem podia usava um Toque de Charisma, os menos aquinhoados se contentavam se ensaboando com sabonete Phebo e tomando um banho de Seiva de Alfazema ou Alma de Flores. Todos os senhores de engenho disponibilizavam caminhões para os moradores virem à cidade na noite de festa. Quatro horas da tarde e a matutada começava a chegar. Os mais religiosos iam à missa, outros paravam no Bar de Seu Quitéria ou na venda de Seu Mané Carneiro pra tomar uma bicada.

Seis horas da noite e as crianças já estavam correndo no parque. Quem não gostava dos brinquedos que giravam, tipo cadeirinha, patinho, tremzinho (que bonitinhos!) corria de barcaça, feito eu. A Roda não podia faltar, assim como as mensagens anônimas no alto-falante rouco ao som de Maurício Reis, o Poeta do Cravo Branco.

Era a época que comíamos uvas passas na caixinha, uva e maçã. Ainda não podia faltar o confeito (alfinim), o pão francês grande e a bola em formato de pato. Tinha mais que se ver pessoas com camisas xadrez e óculos escuros em plena noite de festa.

Passou. Esse pequeno relato só foi possível porque está no passado. Ligeiramente, dei uma passada em meus arquivos memoriais e fiz um download rápido. Não precisa nem dizer que os tempos mudaram. As poucas Rurais, Brasílias, Opalas e Marvericks pertenciam a pessoas de posse. Contavam-se os que tinham motos ou lambretas (Mas cavalos e bicicletas muita gente tinha).

O número de veículos (carros e motos) beira o absurdo em qualquer lugar do planeta. O trânsito sempre está caótico nas pequenas e grandes cidades. É o preço do progresso. Ao longo da Avenida Manoel Borba, Oliveira Estelita e Vigário Rego temos um número de casas comerciais que não havia no passado. recebemos no dia a dia pessoas de outras cidades, dos quatro distritos, das usinas e dos povoados que vêm resolver os problemas cotidianos. Qualquer coisa no meio da rua ou da calçada prejudica a circulação de pessoas e de automóveis, seja um palco no asfalto ou uma barraquinha de confeito.

A tão falada Mobilidade Urbana é apenas uma utopia e as tentativas de melhoras ainda não deram certo em nenhum lugar do mundo. 

Solução? Não sei. Trabalho para arquitetos e engenheiros. Mas até que os gestores (atuais ou vindouros) poderiam consultar a população para saber se tira ou não o parque e as bandas do centro da cidade.

Imagine-se a cena: Véspera de Natal. Onze horas da noite. Certamente as pessoas já têm voltado das igrejas. Algumas estão curtindo Pablo ou Roberto Carlos em suas casas. Não há iluminação nas ruas. Aqui e acolá um prédio público ou uma casa comercial enfeitada. Não há parque (o mesmo estaria no pátio de eventos, ou não). Também não há bares no meio da rua nem tampouco o forte cheiro de mijo na descida do Nova Vicência. Vez por outra um carro ou uma moto riscam a rua. Transeuntes caminham tranquilamente pela via quase deserta. Uma suave brisa balança as folhas das árvores... 

Durma-se com um silêncio desses...

Samuel Cazumbá

P.S. Mesmo assim veja as fotos da festa de 2015. Clique AQUI


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