terça-feira, 26 de janeiro de 2016

E O CARNAVAL DE(EM) VICÊNCIA?

O POVO JÁ FEZ A FESTA E PODE VOLTAR A FAZER NOVAMENTE.

Muitas pessoas em Vicência tiveram a oportunidade de assistirem a uma apresentação do grupo OS DILETANTES. De acordo com o dicionário, o vocábulo designa "aquele que se ocupa em qualquer assunto por prazer e não por obrigação." E assim o era.

Nos intervalos das manhãs-de-sol, no Clube Municipal, Lula Medeiros, Zé Carlos, Reginaldo (Potência), Ruben, Nenen, Renê Luna e Danielzinho tocavam samba enquanto os integrantes da orquestra tomavam uma merecida água. De acordo com Lula, o repertório do grupo era o samba de raiz. O nome foi uma "invenção" do produtor Arnaldo Alexandrino ( o homem do Telex), que nas horas vagas figurava como goleiro da seleção de Vicência com a camisa número 99.


Não sei se tenho tanta moral para falar sobre a folia de momo em Vicência. Acho que muitas outras pessoas teriam muito mais o que dizer sobre o evento. Pelo pouco que pude acompanhar posso fazer uma análise de como os foliões brincavam no passado e como o fazem hoje. O certo é que as pessoas ficaram mais exigentes e, como tudo evoluiu, ninguém se conforma apenas em bater numa lata, se vestir de estopa e sair gritando: "alaursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro!"

Mesmo contra a vontade dos nossos pais (principalmente minha mãe, que me criou na Igreja Batista), íamos à Praça Joaquim Nabuco para ver os carros dando rabiadas. O Carnaval vicenciano se resumia às manhãs-de-sol no Clube Municipal e aos arrastões pelas ruas da cidade, incluindo o tradicional Zé Pereira. Não havia cobrança da população sobre a vinda de bandas ou cantores famosos e todos se conformavam com os acordes do Mestre Aurinho e as graças da catirinas e papangus.


As prefeituras viviam até desafogadas nessa época e podiam tranquilamente financiar a festa. Os blocos se resumiam aos moradores de algumas comunidades que se juntavam, faziam uma cotinha, os homens se vestiam de mulher e as mulheres de homem, outros compravam uma máscara em Seu Baixa Bilau, as crianças pegavam uma lança (os que não tinham recursos inventavam uma engenhoca com um pedaço de cano pvc e um pau, pense numa pressão!) e a festa estava feita.

A praça Joaquim Nabuco, também chamada de Praça de Táxi, era cenário para os Landaus, Galaxs, Fuscas, Brasílias, Variantes, Corcéis, Opalas e Chevetes com seus motoristas doidos darem rabiadas e quebra-de-asas. O mela-mela tomava conta do folguedo. O problema é que muita gente usava produtos químicos, os mais sensatos usavam talco Cinta Azul e Maizena. Quem não quisesse se melar, não saísse à rua. Que o diga o Carro do Óleo.


As manhãs-de-sol e os bailes noturnos no Clube Municipal e depois no ginásio de Esportes eram pagos. Os responsáveis vendiam as mesas, que garantiam o pagamento da orquestra e da banda, e lucravam com os ingressos e o bar. Com o passar do tempo foram aparecendo os blocos.

Um dos primeiros estandartes a ter destaque foi  o PAPAGAIO DOURADO, cujo comando era de Seu Lau da Ambulância. Cite-se também, à mesma época, AS BIÔNICAS, uma prévia das atuais Virgens, que tinha à frente outro conhecido folião vicenciano, o caminhoneiro Sabiá. Surge então o ALISANDO CRESCE, de Seu João Coutinho, que perdurou por vários carnavais até deixar de existir.

No início deste século, mais especificamente em 2004, a Usina Laranjeiras resolve lançar O Bagaço, um bloco que abria o Carnaval em Vicência e região por se apresentar na sexta-feira à noite. Até então era o Zé Pereira que dava abertura ao evento, no sábado gordo. No ano seguinte o Barrados na Folia realizou o maior desfile carnavalesco de todos os tempos na história de Vicência. A partir daí o dinheiro público começou a ser usado para financiar uma parte dos grandes blocos. Obviamente a prefeitura entrava com sua contrapartida, já que outros patrocinadores davam suas contribuições. A cidade ainda teve outro grande bloco, o Ladeirada, originado no Loteamento João Maranhão (Alto da Foice).


Este ano parece que teremos uma volta ao passado no Carnaval de Vicência. Os grandes blocos não irão desfilar e a prefeitura se livrou de dar vultuosas contribuições às troças carnavalescas. Até mesmo porque muita gente migra para as praias ou vão passar os três dias de folga em retiros, sítios, fazendas e afins.

Muitos prefeitos decidiram por si próprios cancelar as festas de Carnaval (mesmo contra a vontade) devido a atual crise que insiste em não sair do país. Um investimento pífio está sendo feito por alguns e, aqueles que não podem fugir da regra, como as grandes metrópoles, correm atrás de parcerias até o último momento.


Fica complicado para um estado que está vivendo um caos na Saúde e Segurança financiar os festejos carnavalescos. Talvez a partir de agora os gestores definam o que é prioridade para uma população. Claro que as festas não deixarão de existir, mas é preciso ter coerência na hora de aplicar os recursos públicos, oferecendo cachês absurdos a artistas de renome. Ainda hoje tem prefeitura e governo de estado atrapalhado por conta disto.

O certo é que este Carnaval, em matéria de disponibilidade de recursos públicos, será tão magrinho quanto este blogueiro. Nada a reclamar. O mundo é dos lights.

Samuel Cazumbá

Agradeço a Lula Medeiros, José Carlos Lopes e Moisés Dionísio pela contribuição ao artigo.
A Banda DILETANTES deu origem ao PAINEL 8.




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