segunda-feira, 6 de abril de 2015

AUTOBIOGRAFIA

QUANDO SE VIVE UMA VIDA DIGNA É FÁCIL FALAR SOBRE NÓS MESMOS.

(Em simultaneidade com o FACEBOOK)

6 de abril de 1969. Domingo de Páscoa. Maternidade de Nazaré da Mata, 4 horas da tarde. O mundo vivia a expectativa de uma hecatombe nuclear com a chamada "Guerra Fria" entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética; os hippies começavam a aparecer e "o homem, bicho da Terra tão pequeno, chateia-se na Terra, (...) faz um foguete, uma cápsula, um módulo, toca para a LUA. Pisa na lua..." (Drummond) O Brasil vive os anos de chumbo da Ditadura Militar. Caetano e Gil são expulsos do país e Pelé faz seu milésimo gol.

Cresci e vivi na mesma rua, na mesma casa. Conheci seu Lula Maranhão (que bastava estalar os dedos para o governador estar a seus pés). Estudei no Juvenato Pé de Pato que ia pra missa sem sapato; dei bênção ao Padre Henrique; ganhei caixinha das Linhas Corrente na loja de Seu Pedrosa; comprei caixa de "birilo" em Dona Biina. Comi trapiá atrás da casa de Seu Mané Trajano e vendi torrero com o hoje também professor Quinca. Comi goiabada feita de banana da Fábrica de doces Jardim & Siriji. Lambuzei-me com suspiro, pipoca de arroz, pirulito, confeito de mel de abelha e guaraná Fratelli Vita

Tirei fotos com Irmão Duda, Seu Paulo Nestor, Aristides e Seu Tiago. Arranquei dentes (Ui, prá!) com Doutor Ricardo; me consultei com Dr. Osman e Dr. Santos na Casa de Parto de Vicência. Saía à noite com meu pai para a Barraca de Seu Quitéria, encostada ao Posto de Seu Arnor. Vi um Opala com a inscrição "Lotação para o Inferno" pegar fogo neste mesmo posto em pleno Carnaval e pessoas correrem desesperadas dizendo que a cidade inteira iria pelos ares. 

Acompanhei alguns enterros com defuntos nos caixões de Baixa Bilau. Conheci Paizin, que "ressuscitou" na subida do cemitério. Tive medo de Bai, assisti mágicas de Zezo, comprei na venda de Seu Zé Maria e no banco de Seu Matão (Feira). Comprei pão em Seu Manoel Gomes, Biu Machado, Zé de Astro e Mané Carneiro. Acompanhei o trabalho de Seu Simplício cobrindo sofás e o de Cobra, na serralharia. Frequentei a Igreja Batista na rua Lopes Lima na qual tinha Irmão Quintino que consertava vasilhas de alumínio. Lá, ouvíamos o barulho da Oficina de Valdemar que ficava bem ao lado.

Comi sopa preta na escola e bebi aqueles leites amarelos dos militares do poder. Estudei tabuada, tive Dona Auxiliadora como diretora. Vi Dona Janete Souza ensinando os riquinhos de Vicência no Jardim da Infância. Soube que o próprio amigo matou Danielzinho no Bar da Rodoviária (O crime chocou toda a cidade). Tive medo da Perna Cabeluda e da Rede, que vinha do espaço levar pessoas práááááá outro planeta.

Brinquei na Praça da Bandeira. Passei por debaixo do ferro da casa de Seu Carlos Sena. Aos domingos íamos ao Parque, isso mesmo, ao Parque de Diversões mantido pela prefeitura em Frente à Assembleia de Deus. Balanço, roda gigante, gangorra e quadrado. Assisti a Durango Kid, Zorro, Paladino, Pepe Legal, Batfino e Karatê. Vi Éramos Seis, Repórter Esso, ouvi violeiros e emboladores de coco na Rádio Planalto de Carpina. Joguei bola na rua de piçarro. Fui goleiro e técnico do Brasileirin, o time que desbancou o  todo poderoso Sport de Rogério Pedrosa. Vi os jogos da Seleção de Vicência (XV de Novembro), do Juventude, do Grêmio e do Foiará (Havaí) no Campo da Caixa D'água. Cortei os cabelos, quando os tive, em seu Pedro Lino, mas os outros barbeiros também faziam sucesso: Seu Tomé e Seu Inácio.

Vi a Construtora Leão construir a pista e o CERu. Andei de ônibus elétrico em Recife. Gravei fitas TDK em Seu Pedro Nego. Tive um radinho Philips e um gravador National. Usei calças Boca de Sino de Tergal e camisa de Cambraia. Ouvia falar muito na Rua da Telha, o cabaré de Vicência. Conheci bêbados, doidos e famosos: Fuba (Leia-se Fúba), Chico Mossoró, ABCDS, Bola de Ouro, General, Nininha (Ainda viva), Seu Biu Sapateiro, Dona Irene da Vassoura, Dona Chiquinha do Bar, Abenante (Cadê o fuso?), Tititi Tatatá (Quebrou a panela do Macapá), Carne Assada, Neco Moraes (Que virava Lobisomem!). Comprei livros didáticos na loja de Seu Amaury. Chupei picolé da Sorveteria Itacolomy. Andei de Rural, Corcel I e II, Opala e Jipe.

Curtí Jorge Chau no Canal 2. Assisti à Discoteca do Chacrinha na Rede Tupi. Vibrei com Simoni, Mike, Tobe, Jairzinho e Fofão na Turma do Balão Mágico. Ouvi Roberto, Marquinhos Moura, Raul Seixas, Menudo, Dominó, Luiz de Carvalho, Ozéias de Paula, Denise e Valdick Soriano. Vi quando Renê Luna cantou "ouvi dizer que o mundo vai se acabar..." e um trovão rasgou o céu acabando com o Carnaval. Assisti Zé do Fó, sim, ele mesmo, cantando no programa do Chacrinha, em São Paulo. Cantei a Ladainha dos Estudantes na Noite de Maio. Marchei nos desfiles de 7 de setembro.

Carreguei feira em carrinhos de mão, vendi picolé, trabalhei na Farmácia São Benedito e na Usina Laranjeiras. Presenciei as inaugurações do CERu. Dr. Joaquim Correia, Ginásio de Esportes, Hotel, Passarela e Prefeitura. Vi nascer a Avenida Estefânia Carneiro e o Alto da Foice. Acompanhei o fim da Ditadura, a redemocratização do Brasil, a queda do muro de Berlim, atravessei o Século XX e o milênio. Vi partirem astros, artistas, amigos, conhecidos e familiares.

O tempo passou. Hoje, 6 de abril de 2015, aos 46 anos, sinto-me mais jovem. Revigorado a cada dia com a Força que vem do alto. Constitui família, tornei-me profissional, aprendi a respeitar as diferenças, amar o próximo, entender as pessoas, gostar de animais. Aprendi a viver e sobreviver.

Dificuldades? Aflições? Desespero? Angústias? Problemas? Claro! Vieram, vêm e continuarão a vir. Mas com esta idade, a experiência adquirida e as pessoas que estão ao seu lado, consegue-se vencer. E é essa vitória que é comemorada a cada dia, a cada hora, a cada momento...

Ontem uma criança, hoje pai de três filhos e uma esposa espetacular. Duas mães, Dona Lídia e Tia Creusa. Uma vida estável. Se alguns sonhos ainda não se realizaram é porque não deu tempo dormir. 

Como é bom chegar a essa idade rodeado de familiares, parentes, amigos e admiradores.

Que bom que, abre aspas, o tempo não para (Cazuza), não fecha aspas...

Samuel Cazumbá



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