sexta-feira, 13 de março de 2015

O RANCHO DE DONA VICÊNCIA

PRIMEIRA PARTE

Escrito originalmente em 1990, "O Rancho de Dona Vicência" é um conto em três capítulos que conta a história da fundação da cidade de Vicência. Para ler e arquivar.

Escrito por Samuel Cazumbá
Arte: José Edinilson (Nilsinho)

O ano é 1852. Os engenhos de açúcar funcionam a todo vapor. De longe avista-se a fumaça das imensas chaminés feitas de tijolos manuais. A mata virgem cobre quase toda a região. Aqui e acolá uma capoeira. Nela, estendem-se plantações de algodão, mandioca, milho e café. Canários-da-terra, pintassilgos, bem-te-vis, carcarás e galos de campina riscam o céu ou repousam nos galhos dos oitizeiros.

O verde é exuberante. Contrasta apenas com o Pau d’arco e suas flores amarelas ou alaranjadas. A chuva de janeiro trouxe consigo o cheiro úmido de terra. A estação frutífera está em seu auge. Manga, jaca, caju, laranja, jabuticaba, araçá, trapiá, banana e outras guloseimas naturais brotam do solo fértil. Nos caminhos estreitos rodeados de mato são encontrados vários jerimuns. Os passantes podem levá-los. Se não, secam ao sol e servem de adubo. Os saguis passeiam livremente pelas redondezas sem serem incomodados. Tejus, cotias, raposas, lobos-guarás, tatus-bola e bichos-preguiça povoam a floresta. Há relatos até do aparecimento de algumas jaguatiricas nas imediações da mata de Jundiá.

Os ribeirões são límpidos. Neles pescam-se traíras, jundiás, acarás e piabinhas. Os córregos servem para matar a sede de homens e animais. A água corrente é transparente. Observa-se as pedrinhas e os girinos no fundo do riacho. A natureza cria seu próprio jardim. O campo está florido. Cravos, margaridas, girassóis, crisântemos e bromélias enfeitam o cenário. Animais de médio e pequeno porte pastam despreocupados.

A comarca de Igarassu é bem distante. Pertinho mesmo está Nazaré, onde já há até comércio. Os sítios são propriedades particulares que ficaram de herança. Os engenhos pertencem aos senhores e sua casta. Neles são produzidos o ouro branco, o melaço e bagaço de cana. Escravos trabalham do nascer ao pôr-do-sol. Ouve-se o ranger dos carros de boi e as cantigas romeiras das religiosas.

Uma nuvem de poeira se aproxima. Eles estão chegando. Andam sempre em bando ou em duplas. São caixeiros, farmacêuticos, médicos ou simplesmente tropeiros viajantes. Há um Rancho. Uma paragem obrigatória. Um lugar acolhedor. Comida caseira, sombra e água fresca para humanos e animais. É hora de descer da montaria, arrear a sela e aproveitar a estada no Rancho de Dona Vicência.

Antônio Cavalcante de Melo é o primeiro a desmontar, já conhece o ambiente e chega tirando verso:

“Ara que tô chegano
Nesse canto de primiça
Só tá faltano um vigaro
Pro mode rezar a missa.”

Dona Vicência Barbosa de Melo vem recebê-los. Na mão uma quartinha com água da cacimba. Com um menear de cabeça a senhoria manda o moço reparar os animais. Treze andarilhos chegam para acampar. Trabalharam em Siriji e, antes de chegarem ao destino final, tinham que cumprir a obrigação: beber da água da pousada das senhoras rancheiras. Pedro Neto é um deles. Carrega consigo a alcunha de Tororó e serve de gozação para o restante da tropa. Preto que só tição, possui apenas dois dentes na boca que nem são vistos devido ao vasto bigode que conserva. Também faltam-lhe os cabelos. Até parece que nunca os tivera. Entretanto no quesito vestuário acha que sempre está na moda. Tem uma cor preferida: azul-marinho. Sejam calças, camisas, ceroulas ou chapéus; pelo menos uma indumentária deve ter o colorido já mencionado. É o único solteiro do grupo, apesar dos 47 anos que ele considera bem vividos.

-Tororó, ajude o moço a amarrar os cavalos e aproveite pra se amarrar com o resto da corda que sobrar – gargalha Biu de Tonhe no que é seguido por seus companheiros.
Pedro se avexa em cumprir o mandado, mas escorrega em uma poça d’água e cai desajeitadamente. Os risos ecoam pela planície...

(Continua na próxima semana...)



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