quarta-feira, 15 de outubro de 2014

ROBERTO CARLOS, O GATO. (HISTÓRIA COMPLETA)

PARA VOCÊ QUE PERDEU A PRIMEIRA PARTE, A HISTÓRIA ESTÁ COMPLETA. 
PARA VOCÊ QUE ESTAVA AGUARDANDO O FINAL, VALE A PENA LER DE NOVO.

ROBERTO GATO*

Autor: Samuel Cazumbá

ERA UMA VEZ...

ASSIM COMEÇA A MAIORIA DAS FÁBULAS. COM O TRADICIONAL ERA UMA VEZ... SUBSTITUIREI O VERBO POR UM SEMELHANTE. PORQUE O PERSONAGEM DESTA NARRATIVA MERECE TODA E QUALQUER DIFERENCIAÇÃO. ERA ÚNICO. ENTÃO...

UMA VEZ EXISTIU UM GATO. MELHOR SERIA SE DISSÉSSEMOS O GATO. ROBERTO NÃO ERA UM GATO COMUM. OS ASPECTOS FÍSICOS SE ASSEMELHAVAM AOS FELINOS NORMAIS. DE PELAGEM MISTA, COM TONS DE CINZA, PRETO E BRANCO, EXIBIA-SE SOBERANO SOBRE OS DEMAIS.  O MODO COSMOPOLITA O IMPEDIA DE SE MISTURAR COM OS COMPANHEIROS DE NOITADAS.

DE OLHAR SAGAZ, ELE SEMPRE NOS FITAVA COM SERIEDADE. A DESCONFIANÇA ERA-LHE COMPANHEIRA FIEL. ROBERTO GATO NÃO SE DESCUIDAVA. OBSERVAVA TUDO. AO ENTRAR NUM LOCAL, PARAVA, SUSPIRAVA, ERGUIA A CABEÇA, EXAMINAVA OS QUATRO CANTOS E RELANÇAVA SEU OLHAR PARA NÓS COMO SE PERGUNTASSE PELO QUINTO.

ERA DIFÍCIL OUVIR UM MIADO DE ROBERTO. A BOA EDUCAÇÃO RECEBIDA NÃO LHE PERMITIAFALAR ALTO COMO O FAZEM A MAIORIA DOS NORDESTINOS. NA MAIORIA DAS VEZES EU JANTAVA NA FARMÁCIA, POIS ESTUDAVA LETRAS NA FACULDADE DE NAZARÉ DA MATA, E O GATO, NOSSO GATO, VINHA ROÇAR-ME AS PERNAS EM BUSCA DE UM PETISCO. CRISTINA, SERVIDORA DA CASA, O CHAMAVA PARA DENTRO. MESMO SEM QUERER ELE OBEDECIA.

ROBERTO "GATO" CARLOS NÃO ERA UM EXIBICIONISTA. TINHA TUDO PRA SER. TRAZIA NO SANGUE A FORÇA DA NOBREZA E SUA VIVÊNCIA NA CAPITAL SERVI-LHE-IA DE EXPERIÊNCIA PARA COMPACTUAR COM SEUS SEMELHANTES. MAS ELE PREFERIU A RESIGNAÇÃO. O ANONIMATO. ATÉ PORQUE ERA MUITO EXPERIENTE. SEUS 8 OU 9 ANOS DE VIDA ( NUNCA SE SOUBE A IDADE EXATA DE ROBERTO) PODERIAM TORNÁ-LO UM CONTADOR DE HISTÓRIAS. MAS ELE PREFERIU O SILÊNCIO.

O BICHANO ESCOLHEU O SÓTÃO PARA MORAR. CONVIVEU COM MORCEGOS, RATOS, BARATAS, ARANHAS E FORMIGAS. TALVEZ ATÉ CONVERSASSE COM ELES, OU O MAIS PROVÁVEL É OS DEIXASSE VIVER EM PAZ. CADA UM NA SUA. ROBERTO RESOLVEU DESCANSAR. E SÓ. SUBIA E DESCIA AS ESCADAS LENTAMENTE. QUANDO QUERIA, E SÓ QUANDO QUERIA MESMO, SUBIA NO MURO E OBSERVAVA O MUNDO AO SEU REDOR. UMA IMENSIDÃO DE TELHADOS E ANTENAS DE TV. TELHAS DE TODO TIPO: ALVENARIA, BRASILIT E ATÉ PALHAS DE COCO. ANTENAS DE ALUMÍNIO (TIPO ESPINHA DE PEIXE) E LÂMPADAS FLUORESCENTES QUEIMADAS. OUVIA AO LONGE O BARULHO DOS AUTOMÓVEIS NAS RUAS CIRCUNVIZINHAS. DEPOIS DE UM CERTO TEMPO, CANSADO DA MONOTONIA, SUBIA AS ESCADAS E IA PARA O SEU APOSENTO PREFERIDO E ESCOLHIDO. DEITAVA-SE EM UM TAPETE ENCARDIDO E DORMIA POR UM LONGO TEMPO.

DE REPENTE ALGO ESTRANHO ACONTECE.

PARA ALGUMAS PESSOAS ROBERTO ERA ROBERTA. A BARRIGA DO GATO COMEÇOU A CRESCER. POPULARES PERGUNTAVAM SE "A GATA" ESTAVA BUCHUDA. A PRINCÍPIO NENHUMA PREOCUPAÇÃO. ROBERTO MORAVA DENTRO DA FARMÁCIA E O SISTEMA DE DEFESA DOS ANIMAIS É MAIS FORTE DO QUE O DOS HUMANOS. MAS O VENTRE DO BICHANO CRESCIA VISIVELMENTE. ESTARIA NOSSO GATO EMPANZINADO? PELO SIM PELO NÃO SERIA MELHOR DAR-LHE UM MEDICAMENTO. ALGUMA COMIDA PODERIA TÊ-LO OFENDIDO.

COM UM OLHAR DE ESPANTO, SEM ENTENDER NADA, O GATO FOI COLOCADO SOBRE O BALCÃO DA FARMÁCIA. UM TAXISTA QUE SEMPRE ESTAVA POR PERTO CHAMADO PEDRINHO PISTOLA O SEGUROU PELAS PATAS TRASEIRAS. EU SEGUREI O BICHO PELA CABEÇA E NELSON OLIVEIRA, O NELSINHO, ESVAZIOU UMA BISNAGA DE MINILAX NO INTESTINO DO GATO. UM MIADO ROUCO SOOU PELO AR. MAS O EFEITO DO REMÉDIO FOI ZERO.

COM O PASSAR DOS DIAS A SITUAÇÃO DO GATO SE AGRAVAVA. ROBERTO JÁ NÃO DESCIA AS ESCADAS PARA PEDIR COMIDA. NÃO SUBIA MAIS NO MURO PARA VER OS TELHADOS. NÃO CONVERSAVA MAIS COM SEU AMIGOS PRETOS, BRANCOS OU CINZENTOS. ESTAVA DOENTE. CORPO ESMORECIDO. SEMBLANTE CONVALESCENTE.. CERCA DE VINTE DIAS SE PASSARAM E O GATO NÃO MELHORAVA. PARA DAR-LHE OUTRO REMÉDIO FOI NECESSÁRIA A INTERVENÇÃO DE DEDA, OUTRO SUJEITO QUE SEMPRE ESTAVA POR PERTO. CRIAVA PASSARINHOS. MAS O PASSARINHEIRO TEVE MEDO DO MIADO DE ROBERTO E O OUTRO SAMUEL, O AFRÂNIO, TAMBÉM CHAMADO DE NENEN, O SEGUROU PELAS QUATRO PATAS E EU DERRAMEI MEIO FRASCO DE GUTTALAX NA BOCA DELE. NENHUM EFEITO. OS LÍQUIDOS SÓ ENTRAVAM. NADA SAÍA.

A TARDE ESTAVA QUENTE. O TEMPO ABAFADO NOS FAZIA SUAR SEM SAIR DO LUGAR. A SENSAÇÃO TÉRMICA ERA INSUPORTÁVEL. O GATO NÃO DESCIA DO SÓTÃO. FUI LÁ VÊ-LO. LÁ ESTAVA ELE. IMÓVEL E ENROSCADO EM UMA COLCHA VELHA. PEGUEI=O PELO MEIO. O CORPO MOLE NÃO SE AGUENTAVA EM PÉ. NÃO ESTAVA MORTO. SOLTOU UM GEMIDO ESQUISITO E VOMITOU. ALEGRIA. PARECE QUE IRIA MELHORAR. TALVEZ, NUM GOLPE DE SORTE, PUSESSE PRA FORA O QUE LHE FAZIA MAL. FELICIDADE GERAL. ROBERTO MELHORARIA..
COLOQUEI-O DE VOLTA AO SEU LUGAR PREFERIDO E FICOU ACERTADO QUE NO OUTRO DIA FARÍAMOS UM CHEAK UP NO FELINO. 

NA MANHÃ SEGUINTE UMA VOZ ECOA DO TÉRREO: "ROBERTO, ROBERTO..." NEM UM MIADO. A PESSOA QUE CHAMA TEME PELO PIOR. MAS NÃO ENTRA EM PÂNICO. TRISTE E LENTAMENTE SOBE AS ESCADAS QUE DAVAM ACESSO AO SÓTÃO E NUM FIO DE VOZ CHAMA MAIS UMA VEZ: "ROBERTO". AO LONGE, EM MEIO À ESCURIDÃO LÁ ESTÁ ELE, EMPOEIRADO, SOLITÁRIO E IMÓVEL EM SEU CANTINHO PREDILETO. AS SETE VIDAS FORAM-LHE EMBORA. O CORPO RÍGIDO DEMONSTRAVA QUE O GATO MORRERA DURANTE A NOITE. LENTAMENTE... ASSIM COMO VIVERA.

ENTRA EM CENA OUTRO PERSONAGEM, O CAIÇARA. UM CIDADÃO QUE AINDA HOJE FREQUENTA A FARMÁCIA SÃO BENEDITO. ROBERTO MERECIA AO MENOS UMA COVA RASA COM UMA CRUZ DE GRAVETOS. O CORPO RÍGIDO DO FELINO FOI COLOCADO EM UMA CAIXA DEZ VEZES MAIOR DO QUE ELE E CAIÇARA O LEVOU PARA SEMPRE. PAGO PARA SEPULTAR O GATO, CAIÇARA NÃO O FEZ. DIRIGIU-SE ATÉ O RIO SIRIGI E, DE UM ARREMESSO SÓ, SACUDIU GATO E CAIXA NAS ÁGUAS POLUÍDAS DO RIBEIRÃO. E PARA AUMENTAR A NOSSA DOR AINDA TROUXE-NOS ESSA TRÁGICA NOTÍCIA. DOEU-NOS MAIS DO QUE A PERDA DO GATO.

FOI-SE ROBERTO CARLOS, O GATO. MAS FICOU SEU EPITÁFIO. DATILOGRAFADO NUMA FOLHA ENCARDIDA DE PAPEL OFÍCIO. NELE TUDO O QUE NÓS QUERÍAMOS DIZER-LHE EM VIDA OU ALÉM DELA:

"Vai Roberto, navega solitário assim como terminaste teus dias. E quando por fim alcançares algum galho em que possas embaraçar-te, não te detenhas, fica por aí mesmo; em um lugar tranquilo e descansa em paz. Aqui ficamos nós, a viver neste mundo insólito e violento. E vez por outra Roberto, pode ter certeza camarada, iremos falar de você."

F   I   M

*Uma história mais do que real, vicenciada pelos personagens cujos nomes não foram alterados."

Segue depoimento do proprietário da farmácia na época:
Benedito Nunes Pereira Filho
Benedito Nunes Pereira Filho12 de outubro de 2014 14:49
Ei Samuel. Nem mais me lembrava do Roberto Carlos. Gostei bastante de seu relato, conto. Muito bom mesmo. O gato morava na casa de praia do pai de Poliana (minha primeira esposa). Depois que venderam a casa, sobrou pra mim. Estou no aguardo da segunda parte. Grande abraço.

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