sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

UMA CRÔNICA (DEPOIS) DO NATAL

SOU DO TEMPO QUE AS MÃES ESCONDIAM A REALIDADE DOS FILHOS (SABE QUE FOI ATÉ BOM!)

Deixei pra escrever este artigo um pouco depois do Natal e depois, bem depois, do fato que narrarei em seguida. Cidade pequena tem suas virtudes e defeitos. Todos querem morar no interior, mas quando já se mora nele há anos você passa a ser seguido. Mesmo que inconscientemente.

A cena se passou em um supermercado da cidade. Uma senhora chega no caixa e vai passando as mercadorias. Eu seria o próximo a ser atendido e aguardava a mulher terminar de passar os seus produtos, quando algo me chamou a atenção. Ela segurou meia bandeja de ovos (15) enquanto passava outros suprimentos. Olhava atentamente o visor da registradora e sempre perguntava à moça em quanto estava a compra. Passou todos os produtos. Em uma mão segurava firmemente os ovos e na outra (dava pra ver) tinha a quantia de setenta reais. A máquina foi enfática no resultado: R$ 61,15. Suspiro. Alívio total. Pode passar os ovos.

Se o valor dos ovos galináceos ultrapassasse os recursos, aquela família ficaria sem omeletes ou o bolo do Natal seria transferido para o Ano Novo. Todos já passamos por isso. Nossas mães, mulheres guerreiras e até mágicas, deixavam alguns produtos de "luxo" para o final das compras. Primeiro o feijão, o arroz, o macarrão, o fubá (Maracanã ou Pererê - Vitamilho era e ainda é bem mais caro) e a tão falada mistura. A "marvada carne". Queijos? Nem pensar. "O dente de comer queijo caiu", dizia minha mãe.

Lembro-me perfeitamente. Minha mãe (Porque fazer fazer feira naquela época era coisa de mulher) fazia as compras da semana no Banco de Seu Matão, ao lado do Mercado. Não havia supermercados na cidade. Eram armazéns e vendas. As mercadorias eram compradas avulsas. Sacos de feijão e farinha ficavam abertos no meio da rua e os comerciantes tiravam a quantidade pedida pelo freguês com um vasilhame de alumínio bem peculiar, ainda visto em alguns lugares. Um quilo e meio disto, duas quartas daquilo e lá estava a Matemática. A fração. E o show do vendeiro. Dava de goleada nos estudantes de hoje na conta, literalmente, de cabeça (pois a caneta Bic só saia de trás da orelha na hora de fazer a conta. As parcelas eram alinhadas em um papel de embrulho e o semianalfabeto mostrava sua destreza com os números. Somava tudo e no final tirava onda com a prova dos nove. A moçada de hoje não sabe nem o que é isto.

Hoje, acho engraçado dois produtos daquela época: bolacha Cream Craker e guaraná. As bolachas eram compradas em "mercado", para quem não podia adquirir a caixa completa. Não vinha separada em embalagens plásticas como hoje em dia. Logo amoleciam se não fossem comidas. Já os refrigerantes (Antárctica, Crush, Clipper e Fratelli Vitta), só quando adoecíamos. A gente bebia Fratelli ou a caçulinha da Antárctica.

Comíamos frutas de época: manga, jaca, pitomba, ingá, trapiá, goiaba, caju, pitanga... Maçã? Uva? Pinha? Melancia? Melão? Passas? Pêra? Péra aí! Eram frutas de rico. O bom mesmo era se lambuzar com o mel da jaca mole. Engolir o caroço da pitomba. Ir chupar cana no corte e levar carreira dos vigias. Engasgar-se com espinha de peixe. Para uns a felicidade era tomar banho nos rios e açudes; para outros era comer os dois biscoitos Champagne que vinham na caixa dos Sortidos Confiança.

Saboreávamos os doces da Fábrica Jardim e Sirigi. Nossas mães compravam Padrax em Seu Benedito e a gente botava as bichas vivas (Por isso que tem gente que até hoje não come macarrão!). E as bolachas Praeiras de Seu Biu Machado? O doce japonês? A carrocinha de algodão-doce aos domingos? O parque da prefeitura comandado por Seu Júlio. O armazém de Seu Manoel Gomes, o Bar de Dona Chiquinha, o Ônibus de Zeca, a Rural de Seu Cícero Rodolfo, o Bar de Seu Quitéria, o Posto de Seu Arnor, o Cavalo de Seu Lula, o Sítio de Seu Ozório, as Mágicas de Zezo, a Oficina de Valdemar, a Rua da Telha e suas "Damas" famosas.

E os nossos bêbados? Fuba, ABCDS, Inácio e tantos outros. Quem, que já passou dos 40, não deu a bênção ao Padre Henrique? Estudamos no JUVENATO PÉ-DE-PATO VAI PRA MISSA SEM SAPATO ou no GRUPO PÉ-DE-BARREIRA, LADRÃO DE MACAXEIRA, PEGA O PINTO NA CARREIRA PRA COMER NA SEXTA-FEIRA. Usávamos creme dental Kolynos, tênis Montreal (para os ricos) e sapato Conga (para os pobres). Cortávamos o cabelo em Seu Tomé ou Seu Inácio. Quem morria nem queria ser enterrado nos caixões de Seu Baixa Bilau. Tínhamos medo de Bai, do Papa-figo e da Rede, que vinha pegar o povo para levar para outro planeta.

Assistíamos Rin-tin-tin, Lassie, Durango Kid, Bat Fino, Jambo e Ruivão, O Direito de Nascer, A Discoteca do Chacrinha, Programa Paulo Marques e Domingo no Parque. Desfilávamos por amor à Pátria. Comprávamos bandeirinhas do Brasil na loja de Seu Pedrosa e nos orgulhávamos em sair às ruas no dia 7 de setembro com a  FARDA da escola. Ouvíamos a Rádio Planalto de Carpina, a Rádio Clube de Pernambuco e a Rádio Difusora de Limoeiro. A Banda Painel 8 cantava MY MISTAKE  no clube municipal sob a luz negra.

No Carnaval íamos à Praça Joaquim Nabuco ver os carros darem rabiada. O dinheiro Público não financiava blocos. As pessoas vestiam uma estopa, amarravam uma corda na cintura, outras acompanhavam batendo em latas e cantando: "Alaursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro." Corríamos das Catitas e das burras.

Quem nunca amorcegou um caminhão de cana pra tirar uma roxinha? E o Trator de Seu Jarde? A Moto de Micula? O Grêmio, o Juventude, o Foiará?

E chegou o final do ano! Calças boca-de-sino e sapato Cavalo-de-aço! Famílias reunidas. Culto. Missa. Procissão. Voltinha no parque. Barcaça. Cadeirinha. Patinho e a Roda-gigante para os corajosos. Na Rua Grande, pipoca de Seu Ademar, alfinin e um pão francês enorme pra levar pra casa.

ÉRAMOS FELIZES...  E SABÍAMOS.

Samuel Cazumbá


Um comentário:

  1. Parabéns pela crônica Samuel, tempos difíceis, tempos felizes :-)
    Adilson Carlos

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