sábado, 12 de outubro de 2013

ÉRAMOS TODOS JOVENS

COMO VIVER SEM TELEVISÃO, VÍDEO GAME, COMPUTADOR, INTERNET E CELULAR

Mil, novecentos e setenta e nove. Ano Internacional da Criança. Final da década de 70. O mundo vivia o medo da Guerra Fria entre Estados Unidos e a extinta União Soviética. O Brasil começava a respirar os primeiros sopros da democracia, mesmo vivendo ainda sob o Regime Militar. Antes disso, em 78 a Argentina ganhou a Copa em Casa, tendo a Holanda como vice e o Brasil como Campeão Moral (Procurem saber o porquê). 

Ouvíamos Jimmy Hendrix, Élvis Presley, Tina Charles, Raul Seixas, Roberto Carlos, Genilval Lacerda e Fabiana, a Pimentinha do Forró. Na televisão, em preto e branco e para poucos, assistíamos a Rede Tupi com a antena em cima de um pé de coco e uma tela plástica azul protegendo o aparelho. Isso nos lugares altos: Avenida, Rua Grande (Vigário Rego para os mais novos)... A  Rádio Planalto anunciava através do programa de Cantador de Viola que era hora do almoço.

Vicência era uma cidade pequena. Rural e rural. Os poucos veículos que circulavam pela cidade dividiam espaço com os cavalos e com a besta branca (animal mesmo) de Seu Mariano Bandeira que vendia manga, jaca e macaxeira de rua em rua. Os veículos eram conhecidos por seus donos: a Rural de Seu Cícero Rodolfo, o Jipe e o Galax de Seu Arnô do Posto, o Opala de Seu Lau, o(s) Fusca(s) de Cilene.


Naquele tempo brincávamos na rua, dormíamos cedo e repeitávamos nossos pais e professores. Tínhamos medo do Papa-figo, de Bai e dos "bois brabos" a caminho do matadouro. Era uma festa: "Lá vem o boi solto", gritava alguém. E a rua virava um pandemônio. Crianças e senhoras corriam e entravam em qualquer casa que tinham as portas sempre abertas, diferente de hoje. Não tínhamos tantos muros. Tínhamos mais pontes: de paus, de pedras e de amizades.

Na venda, sim, na venda mesmo, não o verbo mas o nome, o lugar. Na venda de Zezo, Seu Zé Maria, Seu Jaime e tantas outras, comprávamos pipoca de arroz, suspiro, confeito mel-de-abelha, chicletes Ping Pong ou Ploc e uma coisa de sabor incomparável: refresco de laranja ou abacaxi em garrafas de guaraná. Sim, porque refrigerante mesmo a gente só bebia quando tava doente. Frateli Vita, Crush, Cliper e Guaraná Antártica. Maçã, uva e pera eram frutas de rico. Comíamos trapiá, ingá, pitomba, manga espada (legítima), jaca, banana, coco babão, araçá e azeitona roxa da casa de Seu Ernesto (Que o diga Baninho. Tem um "tái" na cabeça até hoje).

As compras da semana eram feitas nos armazéns ou nos bancos da feira. E se comprava até de mercado. Meio quilo de açúcar. Uma quarta de queijo. Meia caixa de bolacha Cream Cracker Pilar, Confiança ou Sagres. Meio litro de gás. As donas-de-casa não tinham vergonha de pedir um punhado de farinha à vizinha quando a dela se acabava. Isso é que era compartilhamento. Algumas casas ou tinham luz elétrica ou tinham água encanada. Também, nem precisava tanto! A pilha "amarelinha" fazia o Motorádio funcionar e o chafariz e os cacimbões forneciam o líquido precioso.

Nós, crianças, respeitávamos Seu Lula (Senhor de Engenho), Seu Amaury (Prefeito), Dona Auxiliadora e Dona Lucinéia (Diretoras de escolas) e pedíamos a bênção ao padre Henrique. O Juvenato Pé-de-Pato ia pra missa sem sapato e o Grupo Pé-de-Barreira era ladrão de macaxeira, pegava o pinto na carreira pra comer na sexta-feira.

A cidade tinha dois times de futebol: o Grêmio e o Juventude. Da união dos dois nascia o XV de Novembro, a seleção de Vicência. Por falar em XV de Novembro, que não se lembra do Mestre Aurinho regendo os músicos da orquestra? A Banda Painel 8 fazia sucesso em Vicência e na região. Lula da Compesa, Cidinha de Everaldo, Dona Neunice, Flávio Flúvio, Renê Luna e tantos outros eram os seresteiros das noites. Havia bailes no Mercado Público e no Clube Municipal.

A cana-de-açúcar dominava o cenário. Tanto que nesta época todas as crianças estavam nos cortes, de faca na mão se deliciando com as roxinhas e fugindo dos vigias. Corre pra lá, corre pra cá e quem é o bicho? Esconde-esconde, barra-bandeira, Pai Francisco (Nada a ver com o vereador), faroeste e futebol no meio da rua eram nossas brincadeiras preferidas. Mas só durante o dia. À noite sentávamos à calçada para ouvir as histórias e estórias dos adultos. #Medo. Comadre Fulorzinha, botijas e assombrações. Um legado de depoimentos fantásticos que só quem ouviu tem o prazer de recontar. Quando a mãe chamava íamos correndo pra casa. Quem tinha preguiça lavava só os pés. E uma cosia sagrada: "Bença mãe, bença pai...". O "Deus-te-abençoe" ou "Deus-faça-feliz", como dizia meu avô, nos envolvia com um amor incomparável e nos protegia tanto que hoje estamos vivos e contado a história.

Na escola aprendíamos o Hino Nacional, a tabuada e levávamos verduras para ajudar na merenda. Não morremos comendo sopa preta ou bebendo um leite amarelo (kkk) fornecido pelo Governo Federal. O quadro era negro e ninguém nunca ficou cego por causa disso. Nossas mães, porque os pais trabalhavam muito durante todo o dia, compravam nosso material escolar na loja de Seu Pedrosa, em Dona Biina, Dona Tonha Tavares ou Ana Melo. Seu Benedito era o médico da família. Manoel Gomes, Biu Machado e Zé de Astro até um dia desses eram os comerciantes mais falados. Comprávamos pão na padaria de Seu Genival. E quem não provou nunca saberá o sabor que tinham os sovertes e picolés Itacolomy ou os doces da fábrica Jardim e Siriji.

O posto de seu Arnô foi cenário de um acontecimento macabro. Um carro com a inscrição "Lotação para o Inferno" pegou fogo próximo à bomba de combustível em pleno período carnavalesco. E o trovão que acabou com o frevo e fez a terra tremer quando na Praça de Eventos, leia-se hoje Praça Joaquim Nabuco, Renê Luna cantou "ouvi dizer que o mundo vai acabar"? A Rodoviária era movimentada. Foi lá que aconteceu um dos crimes  mais chocantes da cidade naquela época: o assassinato de Danielzinho, irmão de Divânio do Pastel.

Seu Ozório, Rua Manoel Borba, Rua da Macaíba, Rua da Areia (Até a ponte ou bueira na época), Rua da Lama, a minha :(, Rua Grande (Centro), Rua da Olaria (Matadouro), Rua da Cadeia, Rua dos Lisos, Rua do Cajueiro, Rua da Telha (Cabaré), Rua de Sambacuim e só. Essa era a Vicência dos anos 70.

E o tempo passou... A cidade, assim como nós, foi crescendo. E, como diz o cantor Ozéias de Paula, "o que foi não volta mais e de tudo que passou só ficou recordações" (Música Conclusões - Ozéias de Paula - Gravadora Bom Pastor). Bom é estarmos aqui repassando para a moçada de hoje como éramos felizes e sabíamos. Mesmo que lembremos com saudade daqueles que se foram. Uns levados pela vida, outros levados pela morte.

Cada tempo teve o seu tempo, e como diz o sábio Salomão "há tempo para todo o propósito debaixo do sol". Aquele tempo foi bom (para nós), esse tempo é bom (para eles) e o futuro será melhor (para todos).

Neste Dia da Criança abra não só um sorriso, mas escancare as portas e janelas da sua casa e deixe a luz do sol entrar. Faça uma criança feliz. Você.

Ouça a canção abaixo e tente não chorar.

Samuel Cazumbá









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